APROX. 50.300.000
Felipe Abreu.
São Paulo/SP - 2017
Texto: Ana Luiza Lima
84 páginas. 18 x 24 cm.
300 exemplares, Impressão Off Set.
Este é um livro sobre imagens encontradas do google sobre a crise migratória. As imagens, apropriadas e re-editadas, surgem com novas narrativas, exigindo uma reflexão não só sobre o tema que engloba estas fotografias, mas como registramos o outro e como veiculamos informações.
APROX. 50.300.00
Estamos vivendo uma série de profundas mudanças geopolíticas nos últimos anos. Os movimentos migratórios têm transformado intensamente a vida na Europa, no Oriente Médio e, agora, graças ao recém eleito presidente Trump, nos Estados Uni- dos igualmente. Este foi um dos grandes tópicos de discussão jornalística desde o crescimento do Estado Islâmico. Há uma quantidade imensa de pautas, discursos e imagens registrando estas jornadas e as consequências políticas deste imenso movimento migratório em direção à Europa.
Com este cenário em mente, busquei uma maneira de discutir a cobertura fotojornalística deste movimento humano, suas tensões, violências e poten- ciais soluções. A maneira que melhor me serviu para este objetivo foi analisar, editar e ressignificar uma seleção de imagens encontradas na busca por “migrant crisis”. Aprox. 50.300.000 – referência ao número de resultados encontrados em minha primeira busca sobre o tema no Google - se propõe a construir um novo significado a esta coleção de imagens, criando uma narrativa visual que lide com este imenso e importante movimento. As imagens da série buscam os gestos primordiais de cada momento apresentado. Há um desejo constante de proteger a identidade de quem encara esta complexa jornada e de deixar clara a identidade daqueles que tem o poder de alterar esta situação, no caso, o governo, mídia de massas e a polícia.
Considerando a lógica pós-fotográfica de produção, aprox. 50.300.000 abandona o clique produzido pelo fotógrafo-autor e se concentra na criação de novos significados – tanto visuais quanto narrativos – para um universo fotográfico específico. Dessa forma, a apropriação e o remix de cada imagem é um dos atos centrais deste processo de criação, propondo uma reflexão não só sobre o tema que engloba estas fotografias, mas também sobre a maneira com que registramos o outro, a sua dor e a sua jornada.
Felipe Abreu.
FANTASMAGORIA DO REAL E INVENÇÃO DA VERDADE.
É certo que quando intentamos rever as faces mais sombrias da história humana Ocidental, logo nos ocorre os Tempos Médios tomados de obscuran- tismo e violência sob os escudos de religiosida- des arbitrárias em seus atos, dogmáticas em seus códigos, verticais e esmagadoras nos exercícios de poder. O Iluminismo veio, então, como ideário de emancipação: por meio da razão e o foco an- tropocêntrico. A humanidade parecia ter melhores chances de criar modos de existir mais igualitários distante dos reinados dos ‘deuses únicos’, aos quais pouquíssimos tinham chance de acessar, “compre- ender” e executar suas vontades. Contudo, nesse campo da ‘razão’, em que parecíamos estar a salvo da arbitrariedade, os Tempos Hodiernos demons- tram estarmos sob outro tipo de sombra, diferente daquela, porém, igualmente perversa, em que reli- giosidades e ‘racionalidades’ convivem, criando outras realidades Fantasmagóricas.
Não é preciso conhecer muito de retórica para dar-se conta de como um discurso pode dobrar um conceito sempre que for necessário reafirmar uma cultura hegemônica. Os conceitos de democracia, justiça, bem comum, etc, nunca sequer tiveram a chance de realizarem-se na prática para aquilo que foram idealmente construídos. Porque a própria construção desses juízos esteve alicerçada em formas de ser e estar no mundo que nunca incluíram todos os tipos de pessoas. Pior, esses só passaram a existir para re- afirmar a hierarquia de uma cultura sobre as outras, ou um grupo sobre os outros, ou ainda, um gênero sobre outro, como coisa natural. A ‘Ficção de Supe- rioridade’ estabeleceu hierarquias reais: a humanidade sobre as demais espécies, algumas culturas sobre outras, alguns grupos (sociais, étnicos, etc) sobre outros, o homem sobre a mulher, algumas mulheres so- bre outras mulheres e os sempre submissos: crianças, idosos, os considerados loucos. Essa pequena operação ideológica tornou-se a célula-tronco desse corpo social, mundializado pelo capital, cujo funcionamento é sempre anômalo, grotesco, doente. E que é nessa anomalia perversa que o sistema se autoalimenta.
Quem diria que o excesso de racionalidade colocaria a humanidade em xeque? A tecnologia tem tornado possível de maneira exponencial o acesso à infor- mação. Mas tem ficado claro que a informação em si não é capaz de produzir conhecimento que crie acessos às verdades. As verdades andam esgarçadas nas construções narrativas produzidas por hierarquias hegemônicas. São essas as ‘Ficções de Superioridade’ que reproduzem e se autossustentam por meio de uma visibilidade seletiva de certas realidades, institucionalizando a Fantasmagoria. Porque, dentro desta, não se é permitido contemplar todas as nuances e múltiplas visões de um acontecimento histórico, mas apenas cuida de reafirmar estéticas- -discursivas que naturalizam aberrações políticas, econômicas e sociais. Por trás do fácil acesso, uma produção imensurável de imagens procura atender a essa necessidade de produzir fantasmas da realidade. Ao lidar com um número ilimitado de produção de imagens que discursam sobre conflitos, guerras, e toda sorte de agonias que tomam formas diversas no globo, um processo de ‘racionalização’ se instala. Quase sempre cedemos ao programa estético hegemônico às nossas necessidades de apaziguamento pessoal. Diante dos absurdos cotidianos concorda- mos em naturalizar o fantasmagórico.

A arte, contudo, pode ser uma chance para abrir portas e remontar as verdades. Sobretudo no campo imagético, desvendar como um programa estético hegemônico carrega discursos e tais discursos produzem realidades, é também tornar capaz de reinventar modos de ser e estar no mundo. O campo da fotografia e demais linguagens das artes visuais parecem ser ainda o lugar das trincheiras na produção de conhecimento. A reinvenção estética e a desconstrução das formas são, também, desprogramação de conteúdos que alicerçam modos de existir obscuros e verticais.
De modo algum estaremos a salvo das Ficções. Os acontecimentos não são produzidos por realidades, mas pela capacidade humana de inventar e projetar essas criações. O que se almeja, contudo, é que as ‘Ficções Gênicas’, estas que carregam elementos primordiais capazes de fundar novas realidades, tomem formas mais libertárias, multivisionárias e horizontais. De outro modo, se apenas mudarmos os conteúdos, e não as formas de existir, estaremos entregues a um ciclo perverso de ‘Ficções de Superioridades’ sob as quais podem se mudar os protagonistas, mas continuamente haverá os esmagados pelas mesmas narrativas cuja perversidade negará rostos aos vitimados. Aos que têm o sangue derramado como ‘coisa natural’, sempre lhes negam protagonismos e historiografia.
Ana Luisa Lima. Recife, Brasil, 1978
é pesquisadora independente e crítica de arte. Editora da revista Tatuí.
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